"Deus me dê paciência, rapaz! Deus me dê paciência!", gritou a minha mãe enquanto abria os estores do meu quarto. Eu gosto de me levantar tarde ao domingo! Não é preguiça, é mesmo 'gosto'! Domingo é para estar na cama a recuperar da semana de trabalho... A minha santa senhora, contudo, acha que domingo é o dia de ir à missa das 8h. Não a condeno, nem a Jesus Cristo (longe de mim!), mas a paróquia podia alterar os horários, isso podia.
- Deus não a ouve, mãe. Ainda está a dormir, como o resto dos santos! - respondi-lhe. Ela não achou tanta graça como eu acho, agora que penso nisso. Puxou-me os cobertores para trás e deixou-me assim, ao relento, sujeito a todas as agressões que existem para lá de Vale dos Lençóis.
E tive de ir à missa das 8h (não podíamos ir à do meio-dia porque o homem da casa é muito estrito com a hora do almoço, e eu também não aguente muito sem comer), rezar, dar beijos e apertos de mão a vários desconhecidos que me desejam a paz (mas que bem podem estar a desejar outra coisa, que eu nunca vou saber verdadeiramente). Saí resmungão depois do Senhor Padre, e estendi o braço para que a minha mãe me acompanhasse.
- Hoje vamos almoçar fora. - diz-me ela a sorrir. Claro que depois da notícia também eu sorri! Almoçar fora com os meus pais ao domingo é no restaurante da Maria, e ela cozinha que se farta.
- Ei, que bom!
- Hoje é dia da mãe, meu desnaturado!
Pois é! Hoje é dia da mãe, e como filho que sou - esqueci-me! A missa, o almoço... Devia ter desconfiado. A verdade é que a santa costuma avisar com antecedência. Habituou-me mal, que culpa tenho eu?! Mas já apontei na agenda e, se entretanto não mudar de telemóvel, para o ano já tenho quem me lembre.
Ai, minha mãe! Quem era eu sem ti? Provavelmente ninguém. Ninguém mesmo. Acho que nem estaria aqui, porque ninguém se ia dar ao trabalho de fazer alguém como eu (depois disto, de certeza que me perdoa)!
Acabei de reparar que pareço um miúdo de 8 anos. Qu'é isto?